Sobre jedis, ninjas e samurais

Sobre jedis, ninjas e samurais: "

Geeks de todos os tipos adoram se colocarem como os equivalentes tecnológicos de alguma sociedade guerreira–real ou imaginada–que exiba uma quantidade excessiva de coolness no dia-a-dia. Eu não posso culpar ninguém que faz isso porque eu também já fiz a mesma coisa muitas vezes.



É claro, eu nunca gostei tanto de Star Wars. Sendo um fã de Star Trek, eu sempre considerei Star Wars como algo que você superava quando crescia–bom para crianças, mas não para muito além disso (por favor, sem ameaças de morte, estou brincando–bem, nem tanto assim). Star Wars é fantasia e Star Trek é ciência. Claro, os Jedi são muito mais legais e eu preferiria andar com um sabre de luz do que com um phaser mas me dê um torpedo quântico qualquer dia sobre qualquer arma do Império ou da República.



E há sempre os samurais–aquela velha escola, valorosa, sempre envolvida em negócios por conta de honra, muitas vezes sem qualquer esperança de sucesso. De Seven Samurai a The Last Samurai–e não dá para esquecer os livros do Eiji Yoshikawa–nós ocidentais sempre admiramos a forma como esses guerreiros japoneses se conduziam, considerando o seu Caminho do Guerreiro como algo a aspirar.



Finalmente, há também os ninjas ou shinobi. Não muito populares hoje em dia, mas houve um tempo em que eram a febre entre a população mais jovem. Como os samurais, a arte deles também era baseada em princípios de honra e dever–embora, no seu auge, eles fosse mais equivalentes a guerrilhas ou equipes Black Ops do que o modelo mais Special Forces dos samurais.



Mas uma coisa que todas ordens tem em comum é que elas eram bem monásticas, baseadas em códigos estritos sobre como proceder, treinamentos estritos ao longo dos anos e especialmente, disciplina–em muitos casos, com o peso da honra coibindo qualquer relação além da com os companheiros de armas.



Como geeks geralmente gostamos de nos comparar essas ordens porque elas são, bem, fascinantes, e sempre estavam fazendo coisas além no normal, com seus procedimentos arcanos para lidar com situações acima do que uma pessoa normal poderia encontrar.



Mas há algo que é sempre esquecido sobre essas ordens–como mencionado acima, elas eram primariamente e acima de tudo sobre disciplina; sobre um modo de vida ordenado que permitia com que a pessoa se concentrasse no que realmente importava. Tanto o treinamento histórico e real dos samurais e shinobi quanto o imaginado, inspirado pelos anteriores, dos Jedi exigia um compromisso com a disciplina que supera qualquer outra coisa que a pessoa precisaria fazer no curso de sua existência como membro dessas ordens. E, acima de tudo, requeria compromissos entre o possível e desejado e o necessário.



O que me traz ao meu ponto.



Nos últimos quatro ou cinco anos, eu fui parte de quase dez times diferentes. Já vi equipes sucederem a falharam, se recuperaram e continuarem, se unirem e se tornaram grandes, acabarem e seguir com suas vidas. Em resumo, fui parte de um número enorme de situações em que pude participar ou observar como times interagem e fazem as coisas acontecerem.



E em todos esses anos, uma das coisas mais importantes que separou os times ruins ou medianos dos grandes times foi a disciplina, que geralmente a parte mais desprezada nos exemplos que os fãs desses grupos tentam emular quando escolhem seus heróis.



É um tanto irônico que pessoas professem gostar tanto de metodologias ágeis porque estas criam ordem do caos através de times auto-gerenciáveis–times que não precisam de muita direção para fazer e acontecer, times que não precisam ser monitorados continuamente para garantir que estão indo na direção certa–esqueçam de que gerar ordem do caos exige disciplina.



A verdade é que agilidade em times só acontecem naqueles que são disciplinados e que entendem o que se ganha e o que se perde quando um projeto tem que ser cumprido. Sim, agilidade tem tudo a ver com encarar mudanças mas isso só significa que você tem que conseguir trabalhar muito bem com seus pares e com a organização como tudo–entendendo o que está mudando e quais são os meio-termos a serem alcançados–para realizar seus objetivos. Mudança sem contexto, sem disciplina, só gera caos. E isso é que muitos parecem esquecer quando se encantam com o Scrum e suas disciplinas irmãs.



Eu estava falando com um amigo outro dia e estávamos discutindo o fato de que muitos programadores usam a desculpa do ADD para procrastinarem ou para justificar distrações. Geeks, ele estava dizendo, são notórios pela sua baixa capacidade de atenção.



Eu acho–e disse para ele–que o contrário é o correto. Os verdadeiros geeks são disciplinados o suficiente para manter o seu foco e continuar no que estão fazendo a despeito das distrações. Você precisa ser muito focado se quer depurar aquele heisenbug que está mantendo você acordado nas últimas 40 horas, fazendo com que seu servidor capote a cada hora e meia. Você precisa de disciplina para continuar afundando na documentação, indo e voltando para encontrar aquela informação elusiva de permitirá que você otimize a sua rotina para que ela rode em massas de dados enormes. E você precisa de um senso forte de direção para participar de um time sem controle gerencial direto em um ambiente que está mudando continuamente.



Em resumo, disciplina é o que separa os diletantes dos artesãos. É que faz as coisas acontecerem e que realmente cria grandes times. Não quer dizer que você tenha que ser um mala sobre horários, procedimentos ou qualquer coisa assim. Não significa que você não possa se divertir ou que tenha que seguir passos ordenados toda vez que vai fazer alguma coisa. Mas significa que você tem que praticar e pensar e se focar até que isso se torna uma segunda natureza, até que você se torne um mestre no que está fazendo.



E isso é o que ninjas e samurais e Jedi fazem. Eles não param, não correm quando a proverbial situação fica preta. Eles–você sabe–simplesmente vão lá e fazem, e fazem bem.


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